quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Debaixo dos 20 continhos

O Ministério do Trabalho e Segurança Social anunciou com pompa as "Novas medidas de apoio à natalidade". A medida mais inovadora é o Abono de Família Pré-Natal, que se descreve num documento do MTSS da seguinte forma:

Montante de Abono de Família Pré-Natal
O Abono de Família passa a ser atribuído após o 3º mês de gravidez da mãe, o que corresponde a mais 6 meses de pagamento da prestação. No primeiro escalão passará a receber um montante total de € 2.351,16, - mais € 783,72 que actualmente.
Com base em dados actuais (beneficiários de Abono de Família) esta medida abrangerá 90.000 famílias.
26.000 famílias obterão um apoio adicional prévio ao nascimento da criança de € 108,85 por mês – 2º Escalão
32.000 famílias obterão um apoio adicional prévio ao nascimento da criança de €130,62 por mês – 1º Escalão
Ponderando pela distribuição dos titulares pelo respectivo escalão de rendimentos cada família receberá em média €96 mensais.


(http://www.governo.gov.pt/NR/rdonlyres/C455AAC1-B275-4BE9-9E44-CB501D3967A4/0/Apoio_Natalidade.pdf)

Este subsídio passará a ser atribuído a partir de Setembro, tendo sido já aprovado em Conselho de Ministros.

Fiquei muito contente com esta medida, que ainda me antige a carteira durante 4 ou 5 meses. Mas depois comecei a pensar em quem é que ganha mais com esta proposta. São as as mães? São os filhos? É o Estado?
Passo a explicar: recorrendo ao atendimento no Sistema Nacional de Saúde e às entidades privadas com acordos com o SNS, as grávidas não aumentam significativamente os custos no seu orçamento mensal. As consultas são gratuitas, exames como análises e ecografias não são pagos e os medicamentos são comparticipados à taxa máxima. Então, com mais 100 euros por mês eu vou poder juntar para o carrinho e a cadeirinha do bebé, a roupa, a cama, os biberões, as fraldas, as tintas e os papéis de parede... Bom, se calhar 600 euros não chegam para tudo isto. Esta é uma forma de ver a questão - e boa.
Outra forma de encarar estes 20 continhos é utilizá-los para no seguimento da gravidez no privado. As consultas são marcadas mais ou menos de mês a mês, o que pode configurar um bom motivo de investimento. Até porque o valor de uma ida ao obstetra ronda o valor do subsídio mensal e já inclui, muitas vezes as ecografias. Mesmo que o seguimento seja no SNS, uma grávida pode sempre optar por fazer os exames no privado já que, mesmo nos consultórios com acordos com o Estado, marcam-se as ecografias (por exemplo) com menos antecedência se uma pessoa estiver disposta a pagar (ver, por exemplo, a Clínica de Chelas). São só boas notícias! Só não são boas se se acreditar que um governo socialista devia estimular a utilização do SNS... e não ajudar as grávidas a fugirem do SNS.

Há ainda outra questão que deve ser lembrada: a atribuição deste subsídio é feita por escalões de rendimento. E, apesar desta diferenciação parecer justa (e o subsídio muito abrangente, já que só quando se atinge os 2000 euros per capita é que se deixa de ter direito ao mesmo) penso que esta é mais uma forma de estimular a subsídio-dependência das classes baixas. Se eu estiver em casa desempregada e já com um rendimento mínimo (perdão, de reinserção social) este abono de família pré-natal cai que nem ginjas. Os 130 euros a que passo a ter direito por estar grávida são um incremento significativo no meu orçamento familiar. É que este valor vai chegar para pagar a renda da minha habitação social (e ainda sobra). Com mais filhos vou ter direito a uma casa maior e continuo com a renda controlada. E quando puder tenho mais filhos = mais dinheiro = casa maior...

A classe média, que trabalha, que paga impostos, num instante chega ao escalão máximo. Não aos 2000 euros por pessoa (quem me dera...) mas aos 1000 euros mensais. E com 1000 per capita, tem direito a cerca de 90 euros. E 90 euros dão para quê? Se eu estiver empregada recebo os tais 1000 euros, e já vou com sorte. Pago uma renda ou uma prestação mensal ao banco que se aproxima dos 600 euros (e isto é por defeito), pago o passe dos transportes públicos ( o da carris, por exemplo, custa 26,65 euros), pago os inevitáveis almoços em restaurantes de quinta categoria porque a maioria das empresas não tem cantina nem condições para aquecer a comida que se leva no tupperware...

Portanto, debaixo dos 20 continhos que vou passar a receber a partir de Setembro (vamos lá ver) está uma medida populista com dois objectivos: 1 - dessocializar o Estado e em particular a assistência na saúde, incentivando o recurso aos médicos dos sistemas privados; 2 - incentivar as classes baixas e desinformadas a procriarem (desculpem o termo) e a aumentarem o número de indigentes e subsídio-dependentes e consequentemente de adultos com pouca formação. Para a classe média que trabalha e sustenta o Estado, resta uma ajudinha para ter meio filho por casal (assim dizem as estatísticas)...

O abono família pré-natal é um incentivo ao aumento da natalidade? Não me parece. Mais do que o dinheirinho na gravidez, eu sentir-me-ía incentivada a ter mais filhos, se os apoios pós-parto fossem outros: berçários a preços acessíveis, creches a preços acessíveis, pediatras a preços acessíveis, escolas a preços acessíveis, livros escolares a preços acessíveis e, já agora, que a qualidade dos mesmos não fosse duvidosa.

E sim, é claro que eu vou pedir os meus 20 continhos. Como é que eu os vou usar? Vou mudar as janelas da marquise para o meu filho não ter frio e vou pagá-las a prestações. É que o miúdo nasce em Dezembro.

Afinal dá para:

Comer marisco de confiança, descer a grutas, mergulhar a pouca profundidade, enfim, viajar e passar bem. Provas irrefutáveis?






quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Da necessária imobilidade das grávidas ou receita para exames nos Açores


Uma grávida não viaja. Toda a gente sabe. Quando uma mulher engravida é evidente que não se pode deslocar - nem em trabalho, nem de férias, nem por uma urgência imprevista. Embora esta ideia não tenha razões médicas efectivas, o próprio Sistema Nacional de Saúde não permite que se pense de outra forma.
Às 16 semanas de gravidez encontro-me nos Açores. Estou na Ilha Terceira para duas semanas de muita tranquilidade (aqui descansa-se mesmo). As férias estavam marcadas e com passagem de avião comprada, havia muito tempo... muito mais do que o tempo de gravidez. Como era impossível alterar as datas, resolvemos vir na mesma, achando que seria possível fazer a segunda colheita de sangue para o rastreio bioquímico. Realmente foi, graças à Dra. Antonieta Bento da Maternidade do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, e ao Dr. Fernando Teixeira do Hospital do Santo Espírito, em Angra do Heroísmo. Como a mim me levou cinco dias até concluir o processo, descrevo o passo a passo dos essenciais para resolver uma situação como esta:

arranjar uma credencial para os Açores. Convém conhecer alguém com contactos (obrigada Sílvia!) e se não tente nas urgências do hospital;
recusar sempre fazer ecografias e outros exames no privado, porque os dados do primeiro exame são suficientes (com excepção do peso);
contar com a boa vontade do corpo médico açoriano para recolher o sangue, sintetizar o soro e emprestar o contentor que transportará a amostra congelada;
contactar a DHL para fazer o transporte, já que consegue normalmente fazer a entrega no dia seguinte à entrega, ao contrário dos CTT e de outros transitários .

Correu bem, apesar de tudo. Dos pormenores sórdidos retenho que, com excepção do Dr. Fernando Teixeira e da directora do laboratório, a maioria dos intervenientes açorianos neste processo não sabia o que era o rastreio bioquímico, incluíndo a enfermeira obstetra que me encaminhou para o médico que refiro...
Parece-me importante também ressaltar que esta operação que parece simples foi concretizada apenas porque houve boa vontade. Não há protocolos a seguir entre o Ministério da Saúde português e a Secretaria Regional de Saúde, quando se trata de procedimentos excepcionais, fazendo que quem é de "lá fora", como se diz aqui, se sinta estrangeiro e sem direitos. Mesmo quando não se fala de processos complicados, o simples facto do médico assistente ser externo à região autónoma traz complicações. Aqui, os diplomas dos profissionais de saúde continentais e as credenciais passadas por estes não são válidas. Tudo tem que ser feito segundo normas internas. Parece que, sendo residente em Portugal continental, é mais fácil ter filhos em Badajoz do que nos Açores.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Ecografia porcaria II

Quarta-feira passada regressei à Consulta de Saúde Materna com a minha médica de família. Para além dos exames e perguntas habituais, contei-lhe o episódio na Maternidade do Hospital Dona Estefânia. Quando lhe falei do episódio sobre a ecografia (aquele em que a obstetra da Maternidade se referiu à ecografia que eu levava como "uma porcaria") a médica de família pediu-me que a mostrasse de novo.
Mais uma vez analisou cuidadosamente o relatório do ecografista. Referiu que não sendo a obstetrícia a sua especialidade era possível que a obstetra tivesse o olho clínico mais treinado. Mas a seguir disse que não percebia onde é que o relatório falhava. Depois perguntou: "e porque é que ela não lhe fez outra ecografia lá na maternidade, se esta estava tão má?" Sorrimos as duas e não dissémos mais nada...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Cansei de ser sexy?

Parece que ainda há quem acredite na história da cegonha. Isto penso eu, depois de tentar comprar roupa de grávida em várias lojas e sair de lá de mãos vazias. Quem está grávida, na maioria das vezes, teve relações sexuais. E não foi com uma pomba! Foi com um homem! Acresce a este facto, muitas mulheres grávidas confirmarem sentir mais vontade de fazer sexo do que sentiam antes. E o curioso é que este aumento da necessidade sexual é explicado pela ciência, tanto pelas alterações hormonais como pela maior sensibilidade das zonas erógenas, dado o acréscimo de irrigação sanguínea.
"Mas o que é que isso importa?", perguntam as marcas de roupa. A maioria da roupa pré-mamã parece dizer: "Já me f___ uma vez não me f__ mais." Eu não estou a pedir para a roupa ser sexy! Estou a pedir para ser apresentável. Para ter cores normais como o castanho e o vermelho! É necessário ser tudo cor de rosa e fazer ver que uma grávida é uma totó? As alterações do corpo já são difíceis de aguentar, não é preciso um corte radical com o guarda-roupa habitual para me fazer sentir ainda pior. Aposto que quem desenha a roupa das grávidas nunca esteve grávida. Se estivesse e tivesse reuniões de trabalho regularmente e uma vida social interessante e um marido de quem gosta muito, mudava logo de figura, isto é, de figurino!
Felizmente a moda "não grávida" este ano é compatível com a gravidez. Até nisto eu tenho sorte!
E já sei que há lojas com roupa gira como a Formes ou a 1 et 1 font 3. E quem é que tem dinheiro para comprar lá? Eu tenho me safado na H&M, que pelo menos tem calças mais ou menos giras. Mais nada.

Uma grávida não é um hipopótamo!

Há gente burra, há gente com falta de experiência e há gente mal intencionada. Não sei, muitas vezes, distinguir quem é quem - nem que intenção está por detrás de uma frase.
Hoje inicio a 16ª semana de gravidez e quanto mais tempo passa, mais disparates nos ouvidos colecciono. Se ao menos pudessemos fecha-los como fechamos os olhos... Hoje, um amigo fez-me o comentário "desculpa dizer-te mas estás em forma" referindo-se às minhas mamas. As minhas mamas estão gigantes, feias e dóiem-me! E quando eu explico isto, o comentário é basicamente: "mas assim (com roupa) ficam-te bem". E alguém com sensibilidade mental, arranja-se?
Diga-se de passagem que este não foi o pior que já ouvi. Numa loja de um outlet ao ar-livre ouvi o que me pareceu impensável mas que se veio a repetir vezes sem conta. "Loja de roupa de grávida? Não há. Mas ali ao fundo há uma loja de tamanhos grandes." Eu devia ter respondido qualquer coisa didáctica, no género de: "Ó minha amiga, eu estou grávida e as calças não apertam. É só isso! Continuo a vestir o 38 ao contrário da senhora que deve vestir o 44 e insiste em se enfiar por umas calças 40!" Mas só consegui engolir em seco.
As opiniões são tantas que até dá para ficar baralhada. Noutro dia na Segurança Social, comentaram justamente o inverso. Disseram-me que eu não tinha direito a atendimento prioritário porque sou magrinha. "A grávida para passar à frente tem que ter barriga que se note".
Bom, para a próxima vez que lá for levo a amiga de uns amigos meus que me disse ao jantar: "Então gorda, estás boa?" Ignorei, sorri e saí. Mas à segunda interpelação, não aguentei. A gaja (só me ocorrem expressões piores) disse-me "Então barriguda, está tudo a correr bem?" Achei por bem não estar calada e disse tranquilamente: "Ò gaja, eu não estou gorda, nem barriguda e se tu não soubesses que eu estou grávida nem notavas." E a gaja teve a lata de dizer que sim! Que notava! Continuei: "Só aumentei dois quilos e como o meu peso é muito variável e a moda deste ano é roupa larga, quem não sabe, não vê que estou grávida." Não sei porque é que me calei de seguida. Devia ter-lhe dito qualquer coisa do género. "E tu, rodas baixas, que tal? Já resolveste os teus problemas afectivos e mentais? Ah! Resolveste pintar o cabelo de louro. É para condizer com o espírito? É que com o corpo não fica nada bem." Mas não, calei-me muito caladinha...

terça-feira, 3 de julho de 2007

As coisas boas das coisas más

Passaram 3 dias desde a consulta na Maternidade do Hospital D. Estefânia. E hoje, a meio da manhã, recebi uma chamada da instituição. Era uma médica a pedir-me imensas desculpas por me ligar "mas a minha colega esqueceu-se de anotar algumas informações importantes para o rastreio bioquímico".
Parece, então, que a médica que me atendeu estava a substituir esta que me ligou, que gozava férias. E que, apesar de fazer a consulta de forma "técnica", se esqueceu de anotar coisas importantes para chegar a um resultado fiável do teste de probabilidade de malformações. Eram elas: ser fumadora, ser diabética, peso no dia da consulta (felizmente pesei-me nesse dia, na consulta com a médica de família porque na maternidade nem vi uma balança) e, ainda de maior importância, semana de gestação na data da ecografia e respectivos diâmetro biparietal e comprimento craneocaudal...
A minha primeira reacção foi ficar zangada. Mas a verdade é que esta médica que me ligou hoje foi de uma boa-educação extrema e, além disso, 2 dias úteis para detectar um erro não me parece uma fortuna.
Assim, volto a ganhar alguma confiança naquela maternidade.