Na tarde chuvosa, na noite precoce, dentro dos dias tristes e preocupados que vivemos, uma mãe sorri de cara aberta olhando para a sua filha gorda. A pequena não deve ter nove anos e a grande uns 40 muito cansados. Mas sorri, festeja o cabelo da filha, olha para o centro do seu mundo, feliz de a ter, orgulhosa de ela ser como é. Estão à porta da escola de música, aqui ao lado de casa.
E eu sem ver uma cena destas há tanto tempo, dou por mim no autocarro a olhar para fora, amoleço e sorrio, perco a cara endurecida pelos dias que vivemos e descubro, de novo, que é mesmo ali que há beleza e que é só assim que quero ser quando crescer.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Se eu mandasse
1. Não dizia que tinha um aperto no coração por tomar medidas que antes tinha chamado de inevitáveis.
2. Não dizia que tinha dormido mal por ter tomado medidas necessárias.
3. Reduzia o número de deputados.
4. Reduzia o número de acessores de cada ministro.
5. Reduzia no número de funcionários de cada gabinete do parlamento.
6. Reduzia o meu salário para um valor próximo do valor médio nacional.
7. Pedia aos meus parceiros políticos que fizessem o mesmo voluntariamente.
8. Ía no meu carro para o trabalho e colocava os quilómetros.
9. Diminuia o IVA de acordo com a região de origem. Se fossem de cá, eram taxados com um imposto de menor valor.
10. Pedia aos administradores das empresas públicas e das empresas com capitais públicos para reduzirem os seus salários, as suas ajudas de custo, e irem em carro próprio para o trabalho.
11. Se renovasse a frota das instituições públicas, faria-o com automóveis produzidos em Portugal ou com componentes feitos cá.
12. Vestia roupa portuguesa e calçava sapatos portugueses quando fosse ao estrangeiro.
13. Ía na TAP quando fosse ao estrangeiro, em vez de ir num jacto privado.
... to be continued
2. Não dizia que tinha dormido mal por ter tomado medidas necessárias.
3. Reduzia o número de deputados.
4. Reduzia o número de acessores de cada ministro.
5. Reduzia no número de funcionários de cada gabinete do parlamento.
6. Reduzia o meu salário para um valor próximo do valor médio nacional.
7. Pedia aos meus parceiros políticos que fizessem o mesmo voluntariamente.
8. Ía no meu carro para o trabalho e colocava os quilómetros.
9. Diminuia o IVA de acordo com a região de origem. Se fossem de cá, eram taxados com um imposto de menor valor.
10. Pedia aos administradores das empresas públicas e das empresas com capitais públicos para reduzirem os seus salários, as suas ajudas de custo, e irem em carro próprio para o trabalho.
11. Se renovasse a frota das instituições públicas, faria-o com automóveis produzidos em Portugal ou com componentes feitos cá.
12. Vestia roupa portuguesa e calçava sapatos portugueses quando fosse ao estrangeiro.
13. Ía na TAP quando fosse ao estrangeiro, em vez de ir num jacto privado.
... to be continued
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Acabemos com as etiquetas
No Pensamento Cruzado, da TSF, de ontem falou-se sobre a mentira das crianças. O bom da conversa tem o seu melhor numa frase dita assim:
"Nunca confundir o comportamento com a pessoa. Se eu digo tu és um grande mentiroso, eu estou a criar um papel para aquela criança que é o papel que ela passará a representar."
"Nunca confundir o comportamento com a pessoa. Se eu digo tu és um grande mentiroso, eu estou a criar um papel para aquela criança que é o papel que ela passará a representar."
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Uma forma de contar histórias...
...antes da escrita para todos. Mas tão eficaz que ainda hoje resulta. A exposição está no Museu de Arte Antiga e aos domingos de manhã é grátis.
PALAVRAS ANDARILHAS
vêm aí... só lá para Setembro. Mas dizem que vale a pena planear bem a ida. Mais informações aqui.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Problemas de comportamento
Tenho muita dificuldade em perceber o conceito de problemas de comportamento em crianças pequenas. Noutro dia, dei com um livro que explica como lidar com os problemas de comportamento em crianças a partir dos 2 anos. Aliás, dei com a capa do livro porque faz-me confusão abrir um livro destes. É um tema sensível, já sei, e eu confesso o meu medo em falar destas coisas por dois motivos: 1º, pela boca morre o peixe; 2º, tenho amigas cujos filhos são considerados “doentes comportamentais” e custa-me que possam sentir-se magoadas pelas minhas opiniões.
Hoje a capa do metro ostenta uma sumptuosa manchete: “Salas de aula hiperactivas.” Lá dentro, a custo, descubro uma notícia pequenina, pequenina, sobre um estudo que aponta a existência de 2 alunos por turma, em Portugal, com hiperactividade. Mais à frente, lê-se no texto e entre aspas, como citação que não vem atribuída mas se supõe que é da investigadora, “efeitos devastadores.”
Dra. Cláudia Alfaite (a investigadora) efeitos devastadores têm as etiquetas que se colocam nas pessoas. Como o seu estudo recomenda a “intervenção precoce,” cito o artigo, e a detecção “o mais cedo possível” já prevejo que daqui a muito pouco tempo se consiga aferir no berço se uma criança vai desenvolver problemas de comportamento e a partir daí se comece a intervir com “terapia comportamental e medicamentosa”. Deixe-me dizer-lhe também que os maiores psicólogos americanos já se vieram desculpar por terem andado a dizer nos anos 90, que as crianças não deviam ser traumatizadas com castigos e palmadas. O que será que a doutora nos vai dizer daqui a 20 anos?
Pela forma como tenho ouvido as descrições de hiperactividade suponho que corro um risco grande de ter uma criança hiperactiva lá em casa. Porquê? Primeiro porque não sei como é que se deve educar. Depois de ter lido tantas teorias sobre a educação deixei de ler. Porque, por exemplo, as técnicas para o adormecer descritas nos livros não resultaram nem uma vez. Agora já dorme a noite inteira mas volta e meia as coisas andam para trás e temos que descobrir tudo de novo.
Vamos falar das birras? O meu filho inaugurou a época das birras precocemente (de acordo com os livros só começam aos 3 anos, não é?). Como é que consigo que se controle? Digo-lhe que não vale a pena chorar que não lhe dou as coisas enquanto ele estiver a fazer birra. Mas quantas coisas tentei antes de aqui chegar? E tenho a certeza que qualquer dia isto também já não resulta e vou ter de inventar nova estratégia para conseguir que ele acalme.
Outra razão para presumir a hiperactividade do meu filho é que ele é curioso e traquinas. Não pára quieto. Por exemplo, quando vamos no autocarro para a escola não pára de fazer perguntas. Ontem passou o tempo todo a dizer “como se chama esta rua?”. Durante 20 minutos, não é pêra doce. Mas eu lá vou tentando responder...
Na verdade nunca olhei para o meu filho como se fosse defeituoso. Tudo isto me parecem comportamentos normais. Eu é que acho difícil educar uma criança que quase não vejo. Bolas, não basta não o ver durante a semana, como o pouco tempo que me resta é passado a impor regras? Na verdade apetece-me mais brincar com ele. E é ainda mais difícil quando estou tão cansada que só queria chegar a casa e encostar-me um bocado. E ele não deixa. Portanto, quando o diagnóstico for contundente em relação à hiperactividade do meu filho eu vou pedir uma intervenção terapêutica para mim, isto é que me ensinem a comportar, a educar e que me dêem comprimidos para ter pica para lidar com ele todos os dias.
Hoje a capa do metro ostenta uma sumptuosa manchete: “Salas de aula hiperactivas.” Lá dentro, a custo, descubro uma notícia pequenina, pequenina, sobre um estudo que aponta a existência de 2 alunos por turma, em Portugal, com hiperactividade. Mais à frente, lê-se no texto e entre aspas, como citação que não vem atribuída mas se supõe que é da investigadora, “efeitos devastadores.”
Dra. Cláudia Alfaite (a investigadora) efeitos devastadores têm as etiquetas que se colocam nas pessoas. Como o seu estudo recomenda a “intervenção precoce,” cito o artigo, e a detecção “o mais cedo possível” já prevejo que daqui a muito pouco tempo se consiga aferir no berço se uma criança vai desenvolver problemas de comportamento e a partir daí se comece a intervir com “terapia comportamental e medicamentosa”. Deixe-me dizer-lhe também que os maiores psicólogos americanos já se vieram desculpar por terem andado a dizer nos anos 90, que as crianças não deviam ser traumatizadas com castigos e palmadas. O que será que a doutora nos vai dizer daqui a 20 anos?
Pela forma como tenho ouvido as descrições de hiperactividade suponho que corro um risco grande de ter uma criança hiperactiva lá em casa. Porquê? Primeiro porque não sei como é que se deve educar. Depois de ter lido tantas teorias sobre a educação deixei de ler. Porque, por exemplo, as técnicas para o adormecer descritas nos livros não resultaram nem uma vez. Agora já dorme a noite inteira mas volta e meia as coisas andam para trás e temos que descobrir tudo de novo.
Vamos falar das birras? O meu filho inaugurou a época das birras precocemente (de acordo com os livros só começam aos 3 anos, não é?). Como é que consigo que se controle? Digo-lhe que não vale a pena chorar que não lhe dou as coisas enquanto ele estiver a fazer birra. Mas quantas coisas tentei antes de aqui chegar? E tenho a certeza que qualquer dia isto também já não resulta e vou ter de inventar nova estratégia para conseguir que ele acalme.
Outra razão para presumir a hiperactividade do meu filho é que ele é curioso e traquinas. Não pára quieto. Por exemplo, quando vamos no autocarro para a escola não pára de fazer perguntas. Ontem passou o tempo todo a dizer “como se chama esta rua?”. Durante 20 minutos, não é pêra doce. Mas eu lá vou tentando responder...
Na verdade nunca olhei para o meu filho como se fosse defeituoso. Tudo isto me parecem comportamentos normais. Eu é que acho difícil educar uma criança que quase não vejo. Bolas, não basta não o ver durante a semana, como o pouco tempo que me resta é passado a impor regras? Na verdade apetece-me mais brincar com ele. E é ainda mais difícil quando estou tão cansada que só queria chegar a casa e encostar-me um bocado. E ele não deixa. Portanto, quando o diagnóstico for contundente em relação à hiperactividade do meu filho eu vou pedir uma intervenção terapêutica para mim, isto é que me ensinem a comportar, a educar e que me dêem comprimidos para ter pica para lidar com ele todos os dias.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Propostas para Passos Coelho
Querido Pedro,
Eu não sou socialista mas ainda assim resolvi aceitar o teu convite e apresentar-te a minha proposta. Assim:
1. Vem viver lá para casa uma semana. A sério. Podes ficar na cama que está no quarto do meu filho e que é na verdade, o melhor quarto da casa. Tem uma racha numa parede, mas é a divisão com o chão mais direito. Quando acordares às sete da manhã podes preparar o pequeno-almoço ou se quiseres eu preparo o teu, mas tu comprometes-te a ajudar-me a levar o miúdo à escola. Compra o passe semanal no dia antes, está bem? Aos dias de semana não há tempo a perder. Vamos de autocarro e depois a pé. Sabes, o caminho é bem bonito e só demora meia hora! Depois vens comigo para o escritório e ajudas-me nas tarefas que aqui tenho. Produção textos e coordenação de uma equipa. Sabes, dizem que eu sou boa naquilo que faço. Eu faço tudo muito depressa. Almoço muito depressa num chiringuito manhoso mas consigo gastar menos 4 euros com sopa, sandes, sumo natural e café. Sim, eu sei, era melhor vir de tupperware mas aqui não há cozinha, nem frigorífico. Depois volto para o escritório e faço tudo outra vez muito depressa, para sair a tempo de ir buscar o miúdo. Se tu viveres lá em casa, posso sempre ligar-te, (não é?), e vais tu buscá-lo.
Sabes, o pai do meu filho tem um emprego novo porque a empresa onde estava antes faliu. Os sócios já constituíram uma nova empresa, no mesmo ramo, mas as indemnizações ainda não chegaram por completo, apenas chegou a ajuda inicial da Segurança Social. E como o emprego é novo, o meu companheiro tem que mostrar o que vale, para lá do horário laboral, muitas vezes. Mas não faz mal, depois de termos vivido seis meses sem os salários atrasados dele, esta situação é muito mais confortável. Já não temos de recorrer às poupanças para as comprar do quotidiano.
Bom, devo já pedir-te desculpa porque vais encontrar as ruas do meu bairro muito sujas. Sabes, moro ali há cinco anos e nunca vi ninguém a lavar as ruas. A minha casa também não está um brinco é certo, desculpa, mas não conseguimos ter uma empregada a dias para nos ajudar nas limpezas. Assim, ao sábado costumamos limpar, mas há dias que falha, sobretudo agora porque gostamos tanto da praia ao fim-de-semana. Se calhar podes ajudar-nos enquanto vivas lá em casa. Imagina, eu chego a casa e faço o jantar, o pai do meu filho dá-lhe banho e tu limpas a casa. Achas que também podes passar a ferro? Que grande plano! Se, entretanto, eu perder o emprego – porque de repente essa possibilidade tornou-se mais iminente, sabes, estou a um mês de terminar um contrato não renovável e ainda não tenho nenhuma informação oficial sobre o que vai acontecer – prometo que passo eu a limpar a casa. Entretanto, não temos alternativa, porque queremos ir juntando algum dinheiro para usar em caso de aflição.
Que giro. Sabes o meu salário é muito acima da média nacional e a verdade é que eu devia ter vergonha de falar-te destas coisas. Como é possível eu ter uma vida tão dura quando sou quadro superior numa empresa? Ora, deixa-me tentar explicar... Desconto o valor de um salário mínimo quando sou paga pelo meu muito bom trabalho. Depois, pago 296 euros por uma creche que é óptima, a sério, vais ver, mas que também tem um acordo com a Segurança Social e eu como tenho um salário elevado contribuo para o bem comum. Mesmo assim, há quem pague muito mais. Há quem pague 400 euros, apesar de contribuir para o bem comum também quando faz mais que eu retenção na fonte... E a verdade é que não me posso queixar, que eu vi escolas medonhas, também comparticipadas pela SS, onde as crianças não eram felizes. Aliás, sabes que na minha junta de freguesia, que carece urgentemente de uma creche e um jardim infantil, o teu partido e o PS chumbaram uma proposta para a construção dessas valências?
Sabes Pedro, como sou assim para o comunista, resolvi que não ía ter pediatra privado. Assim, o meu filho foi apresentado à nossa médica de família que passou a medi-lo e a vaciná-lo. E na consulta dos 2 anos desisti, porque me deixou insegura, e marquei um pediatra privado que fez uma avaliação muito melhor do estado de desenvolvimento do meu filho. Sabes quanto paguei pela consulta? 80 euros. Sabes quanto é que pago cada vez que quero ir ao dentista? 80 euros. Sabes quanto é que pago no oftalmologista? 70. Sabes quanto é que paguei para ter um diagnóstico mais rápido de um possível cancro do pulmão da minha avó? 700 euros. A boa notícia é que não era cancro! A má é que no público não lhe dão prioridade para o tratamento do problema gástrico e que lhe afecta a respiração porque ela tem 90 anos.
Se viveres lá em casa podes tomar conta da minha avó e eu fico mais descansada, sem medo que ela tenha um acidente, caia, ou pegue fogo à casa. Eu não tenho como ter alguém com ela e isto assusta-me, ela está bem, mas é por enquanto e eu nunca a vou pôr num lar. Bom, se parar de trabalhar tenho o problema resolvido. Que boa ideia!
Sabes que já me angustia a escola primária que devo escolher para o meu filho? Daqui a 4 anos vou ter que escolher entre o alívio financeiro da escola pública ou o descanso de ter a criança numa escola em que as portas das casas de banho existem! Ah! Tenho ainda um plano alternativo, dar uma morada falsa para colocar o meu filho numa escola pública que não me pareça tão mal.
Sei que esta carta já vai longa, mas queria muito que viesses viver comigo como nós vivemos, exactamente como nós vivemos, que partilhasses o nosso dia-a-dia, os nossos medos em relação ao futuro, ao futuro breve, para que percebesses o absurdo das tuas propostas. A escola não pode deixar de ser pública. Tem de ser pública, local, exigente e igualitária. A saúde não pode deixar de ser pública. Tem de ser pública, igualitária, boa, competente. Sabes porquê? Porque somos nós que as pagamos. Logo, somos nós que temos de decidir sobre isto.
2. Se por magia conseguires aprovar as tuas estapafúrdias propostas de alteração à constituição, espero que aproves também o fim da colecta na fonte. Se eu passar a pagar todos os serviços de saúde, educação, transportes, justiça posso perfeitamente dispensar os teus serviços de político.
Então Pedro, o que dizes?
Eu não sou socialista mas ainda assim resolvi aceitar o teu convite e apresentar-te a minha proposta. Assim:
1. Vem viver lá para casa uma semana. A sério. Podes ficar na cama que está no quarto do meu filho e que é na verdade, o melhor quarto da casa. Tem uma racha numa parede, mas é a divisão com o chão mais direito. Quando acordares às sete da manhã podes preparar o pequeno-almoço ou se quiseres eu preparo o teu, mas tu comprometes-te a ajudar-me a levar o miúdo à escola. Compra o passe semanal no dia antes, está bem? Aos dias de semana não há tempo a perder. Vamos de autocarro e depois a pé. Sabes, o caminho é bem bonito e só demora meia hora! Depois vens comigo para o escritório e ajudas-me nas tarefas que aqui tenho. Produção textos e coordenação de uma equipa. Sabes, dizem que eu sou boa naquilo que faço. Eu faço tudo muito depressa. Almoço muito depressa num chiringuito manhoso mas consigo gastar menos 4 euros com sopa, sandes, sumo natural e café. Sim, eu sei, era melhor vir de tupperware mas aqui não há cozinha, nem frigorífico. Depois volto para o escritório e faço tudo outra vez muito depressa, para sair a tempo de ir buscar o miúdo. Se tu viveres lá em casa, posso sempre ligar-te, (não é?), e vais tu buscá-lo.
Sabes, o pai do meu filho tem um emprego novo porque a empresa onde estava antes faliu. Os sócios já constituíram uma nova empresa, no mesmo ramo, mas as indemnizações ainda não chegaram por completo, apenas chegou a ajuda inicial da Segurança Social. E como o emprego é novo, o meu companheiro tem que mostrar o que vale, para lá do horário laboral, muitas vezes. Mas não faz mal, depois de termos vivido seis meses sem os salários atrasados dele, esta situação é muito mais confortável. Já não temos de recorrer às poupanças para as comprar do quotidiano.
Bom, devo já pedir-te desculpa porque vais encontrar as ruas do meu bairro muito sujas. Sabes, moro ali há cinco anos e nunca vi ninguém a lavar as ruas. A minha casa também não está um brinco é certo, desculpa, mas não conseguimos ter uma empregada a dias para nos ajudar nas limpezas. Assim, ao sábado costumamos limpar, mas há dias que falha, sobretudo agora porque gostamos tanto da praia ao fim-de-semana. Se calhar podes ajudar-nos enquanto vivas lá em casa. Imagina, eu chego a casa e faço o jantar, o pai do meu filho dá-lhe banho e tu limpas a casa. Achas que também podes passar a ferro? Que grande plano! Se, entretanto, eu perder o emprego – porque de repente essa possibilidade tornou-se mais iminente, sabes, estou a um mês de terminar um contrato não renovável e ainda não tenho nenhuma informação oficial sobre o que vai acontecer – prometo que passo eu a limpar a casa. Entretanto, não temos alternativa, porque queremos ir juntando algum dinheiro para usar em caso de aflição.
Que giro. Sabes o meu salário é muito acima da média nacional e a verdade é que eu devia ter vergonha de falar-te destas coisas. Como é possível eu ter uma vida tão dura quando sou quadro superior numa empresa? Ora, deixa-me tentar explicar... Desconto o valor de um salário mínimo quando sou paga pelo meu muito bom trabalho. Depois, pago 296 euros por uma creche que é óptima, a sério, vais ver, mas que também tem um acordo com a Segurança Social e eu como tenho um salário elevado contribuo para o bem comum. Mesmo assim, há quem pague muito mais. Há quem pague 400 euros, apesar de contribuir para o bem comum também quando faz mais que eu retenção na fonte... E a verdade é que não me posso queixar, que eu vi escolas medonhas, também comparticipadas pela SS, onde as crianças não eram felizes. Aliás, sabes que na minha junta de freguesia, que carece urgentemente de uma creche e um jardim infantil, o teu partido e o PS chumbaram uma proposta para a construção dessas valências?
Sabes Pedro, como sou assim para o comunista, resolvi que não ía ter pediatra privado. Assim, o meu filho foi apresentado à nossa médica de família que passou a medi-lo e a vaciná-lo. E na consulta dos 2 anos desisti, porque me deixou insegura, e marquei um pediatra privado que fez uma avaliação muito melhor do estado de desenvolvimento do meu filho. Sabes quanto paguei pela consulta? 80 euros. Sabes quanto é que pago cada vez que quero ir ao dentista? 80 euros. Sabes quanto é que pago no oftalmologista? 70. Sabes quanto é que paguei para ter um diagnóstico mais rápido de um possível cancro do pulmão da minha avó? 700 euros. A boa notícia é que não era cancro! A má é que no público não lhe dão prioridade para o tratamento do problema gástrico e que lhe afecta a respiração porque ela tem 90 anos.
Se viveres lá em casa podes tomar conta da minha avó e eu fico mais descansada, sem medo que ela tenha um acidente, caia, ou pegue fogo à casa. Eu não tenho como ter alguém com ela e isto assusta-me, ela está bem, mas é por enquanto e eu nunca a vou pôr num lar. Bom, se parar de trabalhar tenho o problema resolvido. Que boa ideia!
Sabes que já me angustia a escola primária que devo escolher para o meu filho? Daqui a 4 anos vou ter que escolher entre o alívio financeiro da escola pública ou o descanso de ter a criança numa escola em que as portas das casas de banho existem! Ah! Tenho ainda um plano alternativo, dar uma morada falsa para colocar o meu filho numa escola pública que não me pareça tão mal.
Sei que esta carta já vai longa, mas queria muito que viesses viver comigo como nós vivemos, exactamente como nós vivemos, que partilhasses o nosso dia-a-dia, os nossos medos em relação ao futuro, ao futuro breve, para que percebesses o absurdo das tuas propostas. A escola não pode deixar de ser pública. Tem de ser pública, local, exigente e igualitária. A saúde não pode deixar de ser pública. Tem de ser pública, igualitária, boa, competente. Sabes porquê? Porque somos nós que as pagamos. Logo, somos nós que temos de decidir sobre isto.
2. Se por magia conseguires aprovar as tuas estapafúrdias propostas de alteração à constituição, espero que aproves também o fim da colecta na fonte. Se eu passar a pagar todos os serviços de saúde, educação, transportes, justiça posso perfeitamente dispensar os teus serviços de político.
Então Pedro, o que dizes?
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