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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Do 25 de Abril há muitas versões

Um episódio recente tem sempre milhares de versões, dependendo do lado em que se esteve. O 25 de Abril não é, felizmente, uma só coisa, um só sentimento, uma só lembrança. Para a vida das pessoas normais, aquelas que não tinham gente de família na prisão, nem gente em cargos de poder, o 25 de Abril significou: salário mínimo, divórcio por iniciativa da mulher, equiparação dos membros do casal dentro do casamento, possibilidade de escolhas de emancipação, acesso a cuidados de saúde a baixo custo, fim da guerra colonial.
Nos dias que precederam ontem tive muitas dúvidas sobre celebrar esta festa, porque a política que nos mexe na vida todos os dias parece mostrar-nos que afinal não valeu a pena. Depois lembrei-me da avó que cuidou do avô durante sete anos antes que ele morresse apenas com as suas poupanças, lembrei-me do tio que voltou da guerra e nunca mais dormiu descansado, da tia que se separou do marido depois de anos de maus tratos, do primo que foi reconhecido pelo pai em vez de ser filho de pai incógnito...
Sim, estamos mais pobres, temos mais medo, mas já não aceitamos um série de coisas,porque Abril nos trouxe outra visão. E isso, não mudará tão cedo. Porque estas coisas da vida terrena já nos entraram dentro do peito.



foto de http://3picuinhas.blogspot.pt/

sexta-feira, 1 de março de 2013

Os meus dois ou três maridos

O meu primeiro ex-marido trabalhava pouco, ganhava muito menos do que eu, ainda assim tinha uma vida tranquila. A conta no banco era comum e ele podia gastar o que quisesse. Eu ganhava bem e podia pagar-lhe os luxos. Não me importava. Gostava de o ver bem vestido, com belas camisas e sapatos estrangeiros, a falar muito mais do que eu com os meus amigos alemães, espanhóis, ingleses e franceses, mesmo se o nível de inglês não lhe permitisse ter conversas elaboradas (das outras línguas nem vos conto) a sua expressividade era notável. Ficava sempre bem.
Comecei a cansar-me do meu primeiro ex-marido ao mesmo tempo que comecei a ganhar menos bem. Ele exigia-me o mesmo tipo de vida luxuosa e eu, sem lha poder dar, comecei a pensar se não estaria na altura de lhe cortar alguns privilégios. Ele dizia-me que não, que tinha um estilo de vida a manter, mas que eu podia deixar algumas das coisas que eu pagava com o meu dinheiro: primeiro as roupas de marca e os jantares em restaurantes, depois as jantaradas em casa com os amigos, depois o carro, depois a casa… Ou então que fizesse um crédito.
Foi quando troquei a casa que alugava por uma menor, que troquei de marido. Já não gostava do primeiro há algum tempo e lembro-me perfeitamente de ver o meu segundo a avançar pela multidão e destacar-se muito. Era tão diferente do primeiro: era alto como um príncipe, loiro, falava muito bem inglês, não se mostrava vaidoso, usava óculos para ler. Mas era como falava português que me encantava: dizia umas coisas de arrepiar sobre a justiça e a igualdade e o viver com menos. Era um asceta. Fomos logo viver juntos. Não vale a pena esperar quando se reconhece o amor da vida, verdade?
Os primeiros tempos foram maravilhosos. Muita partilha de sacrifícios, muito conforto quando eu chegava a casa depois de horas de cansaço, muito boa conversa. Aos poucos comecei a reparar que era sempre eu quem chegava a casa mais tarde, aos poucos comecei a notar que ele nunca estava cansado, que ele não colocava dinheiro nenhum na conta partilhada, mas que cada vez eu tinha menos dinheiro para as minhas coisas. Ele dava-me bons conselhos e dizia-me para andar a pé e comer de marmita no trabalho. Dizia-me para não comprar roupa, nem sequer na feira do relógio. Ele engordava e estava cada vez mais bonito. Continuava um príncipe, cada vez com um ar mais sério, quase, quase a tornar-se um rei.
Quando a minha conta chegou quase aos zeros quis pô-lo fora de casa mas era tarde demais. Estava tão bem instalado, era tão amigo dos vizinhos, que quem teve de sair fui eu. Ando agora à procura de casa e sem rendimentos razoáveis que possa apresentar para um contrato de aluguer, viverei num quarto de uma pensão enquanto tiver dinheiro. Dizem-me que o meu segundo ex-marido vive bem, na casa que foi minha, à custa dos vizinhos e que faz jantares animados aos quais vai também o meu primeiro marido. Disseram-me que se divertem muito e que falam de mim.
Eu, como não sei viver sem marido, ando à procura do terceiro. Só espero ter sorte e encontrar um muito bonzinho, que não me engane, nem me roube… e que seja bonito.

Maria da República Portuguesa Santos Oliveira Silva


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Uma razão para votar Cavaco...

"Portugal encontra-se numa situação difícil. Mas há uma interrogação que cada um, com honestidade, deve fazer: em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato?" - presidente dixit.

Como? O quê? Hã? Hummmm? Pode explicar melhor?

 Ou se calhar não..

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Uma velha solteirona

A culpa. A culpa em Portugal morre sempre solteira e a responsabilidade nunca se imputa a ninguém.
Segundo o inquérito à morte do Leandro, a escola não pode ser implicada em nada, o miúdo é que era parvo e resolveu sair pela vedação. Os outros amigos sairam pela porta e ninguém os impediu, mas os miúdos é que são parvos...
E o Leandro atirou-se ao rio porque lhe deu a maluca. E claro, quanto a isto, e aos maus tratos que ainda estão por provar, nem a escola, nem seus docentes, nem seus auxiliares de acção educativa têm alguma coisa a responder... Os miúdos andam sempre à pancada porque são parvos e portanto a responsabilidade de todo o sucedido não é de ninguém.

Esclarecimento ao inquisitor:
Os miúdos são todos parvos. Por isso, é que não vivem sozinhos desde que nascem. Por isso se supõe que onde eles estão estejam também adultos que os supervisionem. Para que quando lhes der a maluca, não seja demasiado grande, não seja irreversível, ou não seja triste... demasiado triste.