Tenho muita dificuldade em perceber o conceito de problemas de comportamento em crianças pequenas. Noutro dia, dei com um livro que explica como lidar com os
problemas de comportamento em crianças a partir dos 2 anos. Aliás, dei com a capa do livro porque faz-me confusão abrir um livro destes. É um tema sensível, já sei, e eu confesso o meu medo em falar destas coisas por dois motivos: 1º, pela boca morre o peixe; 2º, tenho amigas cujos filhos são considerados “doentes comportamentais” e custa-me que possam sentir-se magoadas pelas minhas opiniões.
Hoje a capa do metro ostenta uma sumptuosa manchete: “
Salas de aula hiperactivas.” Lá dentro, a custo, descubro uma notícia pequenina, pequenina, sobre um estudo que aponta a existência de 2 alunos por turma, em Portugal, com hiperactividade. Mais à frente, lê-se no texto e entre aspas, como citação que não vem atribuída mas se supõe que é da investigadora, “efeitos devastadores.”
Dra. Cláudia Alfaite (a investigadora)
efeitos devastadores têm as etiquetas que se colocam nas pessoas. Como o seu estudo recomenda a “intervenção precoce,” cito o artigo, e a detecção “o mais cedo possível” já prevejo que daqui a muito pouco tempo se consiga
aferir no berço se uma criança vai desenvolver problemas de comportamento e a partir daí se comece a intervir com “terapia comportamental e medicamentosa”. Deixe-me dizer-lhe também que os maiores psicólogos americanos já se vieram desculpar por terem andado a dizer nos anos 90, que as crianças não deviam ser traumatizadas com castigos e palmadas. O que será que a doutora nos vai dizer daqui a 20 anos?
Pela forma como tenho ouvido as descrições de hiperactividade suponho que corro um risco grande de ter uma
criança hiperactiva lá em casa. Porquê? Primeiro porque não sei como é que se deve educar. Depois de ter lido tantas teorias sobre a educação deixei de ler. Porque, por exemplo, as técnicas para o adormecer descritas nos livros não resultaram nem uma vez. Agora já dorme a noite inteira mas volta e meia as coisas andam para trás e temos que descobrir tudo de novo.
Vamos falar das birras? O meu filho inaugurou a época das birras precocemente (de acordo com os livros só começam aos 3 anos, não é?). Como é que consigo que se controle? Digo-lhe que não vale a pena chorar que não lhe dou as coisas enquanto ele estiver a fazer birra. Mas quantas coisas tentei antes de aqui chegar? E tenho a certeza que qualquer dia isto também já não resulta e vou ter de inventar nova estratégia para conseguir que ele acalme.
Outra razão para presumir a hiperactividade do meu filho é que
ele é curioso e traquinas. Não pára quieto. Por exemplo, quando vamos no autocarro para a escola não pára de fazer perguntas. Ontem passou o tempo todo a dizer “como se chama esta rua?”. Durante 20 minutos, não é pêra doce. Mas eu lá vou tentando responder...
Na verdade nunca olhei para o meu filho como se fosse defeituoso. Tudo isto me parecem comportamentos normais. Eu é que
acho difícil educar uma criança que quase não vejo. Bolas, não basta não o ver durante a semana, como o pouco tempo que me resta é passado a impor regras? Na verdade apetece-me mais brincar com ele. E é ainda mais difícil quando estou tão cansada que só queria chegar a casa e encostar-me um bocado. E ele não deixa. Portanto, quando o diagnóstico for contundente em relação à hiperactividade do meu filho eu vou pedir uma
intervenção terapêutica para mim, isto é que me ensinem a comportar, a educar e que me dêem comprimidos para ter pica para lidar com ele todos os dias.