sexta-feira, 4 de outubro de 2013
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Isaltino ou a sorte de um amor tranquilo
As pessoas fazem contas. As pessoas pagam os mesmos impostos que os vizinhos e têm uma vida melhor. As pessoas sabem, porque lhes dizem, que todos os políticos são corruptos, que a justiça não é cega e que a comunicação social serve interesses obscuros. As pessoas fazem as contas. As pessoas votam no que já conhecem e que sabem que resulta bem para a sua própria vida. De seguida ouvem os moralistas e os intelectuais ofendidos e surpreendidos. Só que os moralistas vivem em concelhos sem trabalho, com barracas… e eles não.
As pessoas fazem as contas, porque hoje são só as contas que interessam.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Reclamação construtiva
O meu filho X submeteu-se a vários exames auditivos no Hospital D. Estefânia, de acordo com prescrito anteriormente numa consulta de otorrinolaringologia, que duraram cerca de 10 minutos, depois de bastantes mais à espera de consulta, e com uma interrupção pelo meio. Tudo procedimentos normais dos quais não me queixo.
Queixo-me da sugestão para levar o X ao psicólogo feita pela técnica que estava a fazer os exames que, como referi acima, demoraram 10 minutos. A razão apontada: dificuldades de concentração.
O X tem 5 anos, é uma criança e não deveria ser preciso dizer mais nada. Mas eu digo: é uma criança normal, curiosa e que adorou o vosso laboratório de audiometria que tem auscultadores, luzes e maquinetas que ele nunca tinha visto!
Gostava de saber se parece razoável a alguém que uma técnica de audiometria possa fazer também uma avaliação psicológica e... em 10 minutos. Espero que quem receber esta reclamação perceba que não estou ofendida, na medida em que, felizmente, sei quem é o meu filho e confio plenamente nas avaliações que a escola que frequenta faz dele regularmente. Mas conheço alguns pais e profissionais de saúde para quem esta simples afirmação em contexto hospitalar iniciará facilmente um breve caminho até à hiperatividade, ao deficit de atenção e à medicação.
E é por isso que vos dou nota do acontecido. Esperando que sirva esta reclamação para que tal não ocorra novamente.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Da escola: não querer ser professor
A minha licenciatura era vocacionada para o ensino - ensino de
português língua materna com sua gramática e literatura para as criancinhas e
adultos que frequentassem o ensino secundário em Portugal ou em português no
estrangeiro. Era a saída mais evidente ou a entrada no mercado de trabalho mais
direta do curso de Línguas e Literaturas Modernas, variante estudos
portugueses.
No meu ano havia 4 bons alunos, daqueles que se destacavam
mesmo pelas notas muito boas, pela noção de encantamento que nos devia causar
a leitura de um poema e pela capacidade de pensar e relacionar as matérias do
programa curricular com as demais matérias da vida.
Desses 4 alunos que se destacavam pela positiva num curso
vocacionado para o ensino, hoje nenhum é professor do ensino secundário em
Portugal. A Cláudia deixou os estudos literários a meio do curso para se
dedicar ao Conservatório de Teatro e hoje escreve e dirige peças de teatro
acutilantes e reconhecidas pela crítica. O Diogo seguiu para o Conservatório
depois da licenciatura e do convite para integrar o mestrado em Linguística e,
a última vez que o vi, era ator. O Pedro mestrou em literatura portuguesa,
constituiu uma escola de artes e escreveu já vários livros, o último
recentemente publicado, Despaís, é um
livro do caraças, isto é, um livro que todos os portugueses e todos os cidadão de países em crise deviam ler.
Quanto a mim, escolhi não ser professora por duas razões:
teria de estudar mais dois anos até poder exercer a profissão (um ano para
pedagógicas com exigência de presença diária, coisa impossível para mim que já
trabalhava, e um ano de estágio numa escola) e teria para sempre um mau patrão
(lembro-me de ter dito isto tal e qual). Era o ano da graça de 2001.
Desde há 12 anos, eu tive dois contratos de trabalho sem
termo, 2 anos de contrato com termo certo, com dois anos de desemprego
interpolados por recibos verdes. Fui enganada algumas vezes, tive de andar a
choramingar para conseguir cobrar muitas mais e a fazer trabalhos muito
diferentes do que a minha ocupação principal faz prever. Tive meses em que não
ganhei um tostão e outros em que ganhei tão mal que não chegou para as
despesas.
Nunca me arrependi da decisão de não ser professora. Porque
se fosse, tinha andado pelo país de mala às costas, ganhando uma ínfima parte
do dinheiro que já ganhei até hoje, reduzida para sempre ao estatuto de aluno Erasmus
cá dentro, dividindo casas com gente estranha, incapaz de construir uma família,
ou vendo os filhos crescer aos fins-de-semana, continuando a ler apenas no
comboio de regresso a casa, levando pancada da primeira mãe cujo filho eu
repreendesse, sendo gozada por profissionais medianos de outras profissões que
me diriam: ‘és professora porque não arranjaste mais nada para fazer?’ e não
conseguindo nem uma vez uma contratação por mais do que um ano, não por fim da
necessidade do meu trabalho, mas porque é assim o sistema, sendo alvo da
chacota dos alunos que eu sentisse a necessidade de chumbar porque as passagens
administrativas de multiplicaram ao extremo.
Eu acho estranho que um país não queira aproveitar para o
ensino da sua língua materna, da sua cultura, os seus melhores alunos. Como nós
os 4 deve haver mais mil que desistem de ensinar no liceu por motivos alheios à
docência. Mas pelos vistos sou só eu que acha estúpidas a vida dos professores,
as obrigações destes e a sua relação com a entidade patronal. Para o Ministério
da Educação tudo vai bem e não é de agora.
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segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Está tudo bem
É só para avisar que está tudo bem. Que o texto Os valores da fome fala de toda a gente, não fala de mim em particular. Simplesmente, mesmo estando em contraciclo - feliz no emprego, etc - e com menos medo do futuro continuo preocupada com o que se passa à minha volta.
Obrigada a todos os que se preocupam comigo!
Obrigada a todos os que se preocupam comigo!
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Os valores da fome
Ao cuidado e atenção da dra.
Dulce Rocha,
(vice-presidente do Instituto do Apoio à Criança que disse “a crise não pode servir de desculpa para os maus tratos às crianças”, “os valores têm de se sobrepor. Nós não podemos agredir uma criança porque estamos preocupados” quando comentava na antena da TSF o estudo do Núcleo Hospitalar de Apoio à Criança e Jovem em Risco que documenta o aumento dos maus tratos a crianças em Portugal, “aponta a negligência como o mau trato mais frequente. Desde a negligência passiva, em que as famílias não conseguem dar resposta às necessidades básicas dos mais novos, à negligência ativa, com intenção de provocar dolo e danos” lê-se na notícia.)
Quando decides ter um filho é sinal que tens esperança no futuro. Quando não tens esperança, já depois de teres sido afetada pelo desemprego e pela pobreza, ter um filho é um peso. É um peso. É horrível dizer isto, mas o filho que fizeste nascer não tem futuro, é assim que te sentes. Se tu que és mais alta, mais velha, mais forte não vês futuro, já perdeste a esperança, como podes acreditar que há esperança para o pequeno que tens na mão? Como é que podes acreditar que depois de te esforçares, de teres trabalhado 10 ou 20 ou 30 anos e teres ficado sem nada, depois de perderes pouco a pouco a eletricidade, o banho diário, a casa, a comida, a privacidade, a dignidade, como podes acreditar que ele tenha algum futuro, partindo agora de uma casa muito mais abaixo do que aquela em que tu começaste?
Quando decides ter um filho é sinal que tens esperança no futuro, mas não contas que o futuro não depende só de ti. Ou não depende nada de ti. Não sabes que por mais que trabalhes, que lutes, que te esforces, que rebentes, há coisas que não dependem de ti como… os financeiros da empresa onde trabalhas terem feito as contas certas, o Estado para o qual descontas não ter investido mal os teus impostos, o tempo em que tu vives não ser demasiado rápido para que num ápice tudo mude para pior.
Por isso, quando há uma crise, não daquelas que te atiram ao chão, mas daquelas que te encostam à parede e te dizem “o caminho acaba aqui”, tu és capaz de fazer o impensável – aquilo que disseste não entender, antes de perderes a esperança. É assim que aumentam os casos de maus tratos a crianças, que fizeram notícia esta semana. Estamos a tratar mal as crianças, como não acontecia há mais de 20 anos, não porque nos tornámos animais de repente mas porque estamos sem esperança, porque estamos cheios de medo, porque a tristeza nos está a comer por dentro.
A crise não é a desculpa é a causa. Olhas para o teu filho e ficas sem saber para que é que o fizeste nascer, porque vai passar por tudo isto e pior. Tens menos paciência quando ele chora, porque precisas mesmo de dormir para conseguires trabalhar bem amanhã, porque sabes que se trabalhares mal começas a ir para a lista dos próximos a despedir. Deixa-lo em frente à televisão horas a fio, para poderes limpar a casa e cozinhar de forma a transformar a pouca comida que tens numa refeição e para poderes trabalhar mais um bocado. Às vezes não chegas a tempo de o ir buscar à escola e ele vem para casa sozinho. Às vezes levantas-te demasiado cedo para o acordares e sais de casa em direção ao autocarro a desejar que ele oiça o despertador e que coma o bolicao que deixaste na bancada e que não seja raptado no caminho para a escola, nem violado pelo vizinho sinistro do quinto andar. E tens a certeza absoluta que o podias educar melhor se tivesses mais tempo e tens a certeza absoluta que podias trabalhar mais e melhor se não tivesses um filho. E desesperas e… ou te cortas, ou te bates, ou começas a tratar mal a quem mais queres. A tristeza começa a tornar-te um monstro, tu sabes e não te controlas porque já não és capaz.
A crise, dra. Dulce Rocha, não é a desculpa é a culpada, porque a crise fez desaparecer as condições mínimas de muitas de nós sermos as mães que queríamos ser, levou-nos a certeza do pão na mesa todos os dias, levou-nos a certeza de que, aconteça o que acontecer, os nossos filhos vão estar sempre protegidos da fome e da pobreza que alguns dos nossos pais sofreram em crianças.
Quando dizes que é preciso ter valores que se sobreponham eu gostava imenso de concordar contigo, mas não conheço nenhum valor que se sobreponha à necessidade de comer. Enquanto tu e outras pessoas com responsabilidades e contactos políticos vão dizendo que a culpa é exclusiva de cada pai e mãe que maltrata um filho, que a crise é só uma desculpa, cada pai, cada mãe e cada filho vai ficando mais sozinho numa vida horrível que lhe foi imposta. A crise é cada vez mais uma coisa lá longe que nada tem a ver com a vida das pessoas e aposto que esta ideia descansa muito a consciência de quem tem responsabilidades de tomar decisões que afetam todos. Para ti é “só” estar desempregado, para os que só tinham o trabalho como fonte de alimento é a vida inteira e a dos filhos que está no limbo.
Então, a minha proposta, dra. Dulce Rocha, é que uses a tua influência para personificar a crise junto de quem decide, de forma a que menos famílias sejam afetadas pela crise ou que, sendo isto impossível, que as famílias tenham sempre como garante condições básicas para criar os filhos, de forma a não desesperarem. Pode ser? Obrigada!
(vice-presidente do Instituto do Apoio à Criança que disse “a crise não pode servir de desculpa para os maus tratos às crianças”, “os valores têm de se sobrepor. Nós não podemos agredir uma criança porque estamos preocupados” quando comentava na antena da TSF o estudo do Núcleo Hospitalar de Apoio à Criança e Jovem em Risco que documenta o aumento dos maus tratos a crianças em Portugal, “aponta a negligência como o mau trato mais frequente. Desde a negligência passiva, em que as famílias não conseguem dar resposta às necessidades básicas dos mais novos, à negligência ativa, com intenção de provocar dolo e danos” lê-se na notícia.)
Quando decides ter um filho é sinal que tens esperança no futuro. Quando não tens esperança, já depois de teres sido afetada pelo desemprego e pela pobreza, ter um filho é um peso. É um peso. É horrível dizer isto, mas o filho que fizeste nascer não tem futuro, é assim que te sentes. Se tu que és mais alta, mais velha, mais forte não vês futuro, já perdeste a esperança, como podes acreditar que há esperança para o pequeno que tens na mão? Como é que podes acreditar que depois de te esforçares, de teres trabalhado 10 ou 20 ou 30 anos e teres ficado sem nada, depois de perderes pouco a pouco a eletricidade, o banho diário, a casa, a comida, a privacidade, a dignidade, como podes acreditar que ele tenha algum futuro, partindo agora de uma casa muito mais abaixo do que aquela em que tu começaste?
Quando decides ter um filho é sinal que tens esperança no futuro, mas não contas que o futuro não depende só de ti. Ou não depende nada de ti. Não sabes que por mais que trabalhes, que lutes, que te esforces, que rebentes, há coisas que não dependem de ti como… os financeiros da empresa onde trabalhas terem feito as contas certas, o Estado para o qual descontas não ter investido mal os teus impostos, o tempo em que tu vives não ser demasiado rápido para que num ápice tudo mude para pior.
Por isso, quando há uma crise, não daquelas que te atiram ao chão, mas daquelas que te encostam à parede e te dizem “o caminho acaba aqui”, tu és capaz de fazer o impensável – aquilo que disseste não entender, antes de perderes a esperança. É assim que aumentam os casos de maus tratos a crianças, que fizeram notícia esta semana. Estamos a tratar mal as crianças, como não acontecia há mais de 20 anos, não porque nos tornámos animais de repente mas porque estamos sem esperança, porque estamos cheios de medo, porque a tristeza nos está a comer por dentro.
A crise não é a desculpa é a causa. Olhas para o teu filho e ficas sem saber para que é que o fizeste nascer, porque vai passar por tudo isto e pior. Tens menos paciência quando ele chora, porque precisas mesmo de dormir para conseguires trabalhar bem amanhã, porque sabes que se trabalhares mal começas a ir para a lista dos próximos a despedir. Deixa-lo em frente à televisão horas a fio, para poderes limpar a casa e cozinhar de forma a transformar a pouca comida que tens numa refeição e para poderes trabalhar mais um bocado. Às vezes não chegas a tempo de o ir buscar à escola e ele vem para casa sozinho. Às vezes levantas-te demasiado cedo para o acordares e sais de casa em direção ao autocarro a desejar que ele oiça o despertador e que coma o bolicao que deixaste na bancada e que não seja raptado no caminho para a escola, nem violado pelo vizinho sinistro do quinto andar. E tens a certeza absoluta que o podias educar melhor se tivesses mais tempo e tens a certeza absoluta que podias trabalhar mais e melhor se não tivesses um filho. E desesperas e… ou te cortas, ou te bates, ou começas a tratar mal a quem mais queres. A tristeza começa a tornar-te um monstro, tu sabes e não te controlas porque já não és capaz.
A crise, dra. Dulce Rocha, não é a desculpa é a culpada, porque a crise fez desaparecer as condições mínimas de muitas de nós sermos as mães que queríamos ser, levou-nos a certeza do pão na mesa todos os dias, levou-nos a certeza de que, aconteça o que acontecer, os nossos filhos vão estar sempre protegidos da fome e da pobreza que alguns dos nossos pais sofreram em crianças.
Quando dizes que é preciso ter valores que se sobreponham eu gostava imenso de concordar contigo, mas não conheço nenhum valor que se sobreponha à necessidade de comer. Enquanto tu e outras pessoas com responsabilidades e contactos políticos vão dizendo que a culpa é exclusiva de cada pai e mãe que maltrata um filho, que a crise é só uma desculpa, cada pai, cada mãe e cada filho vai ficando mais sozinho numa vida horrível que lhe foi imposta. A crise é cada vez mais uma coisa lá longe que nada tem a ver com a vida das pessoas e aposto que esta ideia descansa muito a consciência de quem tem responsabilidades de tomar decisões que afetam todos. Para ti é “só” estar desempregado, para os que só tinham o trabalho como fonte de alimento é a vida inteira e a dos filhos que está no limbo.
Então, a minha proposta, dra. Dulce Rocha, é que uses a tua influência para personificar a crise junto de quem decide, de forma a que menos famílias sejam afetadas pela crise ou que, sendo isto impossível, que as famílias tenham sempre como garante condições básicas para criar os filhos, de forma a não desesperarem. Pode ser? Obrigada!
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Traí-te
Querido blogue,
fui escrever para outro lado e, ainda por cima, fui escrever sobre o amor, coisa que nunca faço aqui. Mas prometo-te um texto lindo, lindo, sobre a escola, fresquinho e emocionante, para a próxima semana.

fui escrever para outro lado e, ainda por cima, fui escrever sobre o amor, coisa que nunca faço aqui. Mas prometo-te um texto lindo, lindo, sobre a escola, fresquinho e emocionante, para a próxima semana.

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